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Traça dos Livros

"It's the way to educate your eyes. Stare. Pry, listen eavesdrop. Die knowing something. You are not here long." W Evans

Traça dos Livros

"It's the way to educate your eyes. Stare. Pry, listen eavesdrop. Die knowing something. You are not here long." W Evans

Vamos lá a ver se nos entendemos

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Sempre que a notícia é sobre questões LGBT, como agora o são sobre Orlando, aparecem nas caixas de comentários, repetidas até à exaustão, as perguntas do costume. E ainda que eu entenda as perguntas não posso aceitar a pouca predisposição que as pessoas que as colocam têm para escutar a resposta; o que significa que as questões não são colocadas com base na curiosidade de entender o outro mas com a intenção única de, usando a pergunta como escudo, julgar e condenar. 

 

"Porque é que os gays continuam a ter necessidade de saírem publicamente do armário? É só para se exibirem."

"O que é que o resto da sociedade tem a ver com o facto de serem gays? Eu não ando todos os dias a dizer que sou heterossexual!"

"Porque é que têm de me esfregar na cara que são gays? Sejam lá o que quiserem ser que ninguém tem nada a ver com isso."

 

Meus queridos, sair do armário não é algo que vos diga inteiramente respeito. Acreditem, vocês não são assim tão importantes, amestrem lá um bocadinho o vosso ego. Sempre que um de nós sai do armário, um acto de libertação para o qual é preciso ter uma boa dose de coragem, não o faz apenas por si próprio - e muito menos para vos afrontar - fá-lo por todos os outros que ainda não encontraram a sua voz e a sua força porque vivem prisioneiros do medo real e imaginário de não serem dignos de si mesmos e da sociedade em que vivem. 

 

A maior parte das vezes que um de nós sai do armário, ou seja, que revela publicamente que é gay, lésbica, bissexual, transgender ou whatever, não é por si próprio que o faz nem com o propósito de se exibir porque, como a maior parte de vocês acha, agoraestá na moda ser gay. Quando um de nós sai do armário fá-lo também, e às vezes, só para enviar uma mensagem. Para dizer a quem precisa ouvir - e há tantos, tantos, tantos, que precisam dessa segurança - que não estão sozinhos, que não existe nada de errado na forma como expressam amor, que nada existe de errado na diferença que manifestam. Que a diferença não tem de ser, nem deve ser, condenada mas c.e.l.e.b.r.a.d.a. A começar dentro deles mesmos. 

 

Quem sai do armário publicamente fá-lo, também, para alcançar aquela que é a franja da juventude com maior taxa de suicídio e mais propensa a sofrer de bulying e de depressão do que qualquer outra. Fá-lo para que, pelo menos alguém, em alguma parte do mundo, decida que vale a pena viver para lutar mais um dia. Para que alguém, em alguma parte do mundo, acredite que as coisas podem melhorar. Fá-lo porque amar alguém do mesmo sexo ainda é crime em 78 países. Fá-lo porque, em cinco deles, amar alguém do mesmo sexo é punível com a pena de morte. Fá-lo porque entende que é sua responsabilidade ser uma voz a favor da tolerância, a favor da inclusão, a favor da igualdade. A favor dos direitos humanos. A favor da vida. A favor do direito à diferença. A favor do direito a existir.

 

Quando vocês dizem que ninguém tem nada a ver com isso de se ser gay eu digo que estão errados. Na vossa aparente indiferença, nas vossas criticas, no vosso humor ofensivo que distribui "paneleiros", "rabetas", "pegar de empurrão", "travecas" e "fufas" à discrição; na vossa pouca capacidade para descobrir o outro com o olhar despido dos preconceitos que herdaram e que mostram tão pouca vontade em quebrar, jaz também o sangue deles. Como jaz nas minhas mãos, sempre que não tenho a coragem e/ou paciência para intervir e educar-vos. 

 

Desculpem lá o incómodo, mas vamos continuar a sair publicamente do armário porque esse gesto salva vidas. Porque esse gesto produz mudança. É positivo. Porque temos uma responsabilidade perante os nossos pares. Porque temos a responsabilidade de proteger os nossos jovens e aqueles que, entre nós, são mais fracos e mais desprotegidos. Porque temos a obrigação de construir um mundo em que as nossas crianças possam crescer sem o jugo de uma sociedade que as mutila. Se quiserem escutar-nos teremos o maior prazer em responder às vossas perguntas, caso contrário, vamos continuar a gritar sobre a vossa ignorância porque ela, sim, mata. Ainda mais quando é voluntária e consequência da preguiça de pensar.

 

Lamento que, de cada vez que vos é dada a hipótese de refletir sobre o mundo em que vivem e a forma como querem intervir nele para o tornarem num espaço que, realmente, deve ser de toda a gente porque é, efetivamente, de toda a gente, desperdicem a oportunidade e prefiram revelar uma imagem vossa que, se pararem para pensar, apenas vos humilha. Nenhum de vocês fica bem nessa fotografia, porque sempre que escrevem um comentário que pretende ser engraçado - a morte de 49 pessoas tem uma piada do caraças - a maioria das pessoas que vos lê compadece-se da vossa pouca capacidade intelectual. Eu teria vergonha de me considerarem burra. Mais do que alguma vez terei por me chamarem fufa. 

 

Desculpem lá, mas vamos continuar a sair do armário por todos aqueles que são rejeitados pelos próprios pais. Por todos aqueles que são expulsos de casa pelos próprios pais. Por todos aqueles que são assassinados pelos próprios pais. Por todos aqueles que são enviados para centros de conversão. Por todos aqueles que, todos os dias, nas escolas e nos seus locais de trabalho, são vitimas de bulying. Por todos aqueles a quem é dito que não merecem viver. Por todos aqueles a quem é dito que se matem. Por todos aqueles a quem não chegámos a tempo de salvar e que efectivamente se mataram. Por todos aqueles que são retirados de suas casas e encarcerados. Por todos aqueles que são enforcados em estádios de futebol. Por todos aqueles que são apedrejados até à morte e espancados sob o olhar complacente da polícia. Por todos aqueles que vocês insultam na rua sem terem a consciência do dano que provocam e que transforma este parágrafo numa pescadinha de rabo na boca fazendo de tudo consequência de tudo. 

 

Vamos continuar a sair do armário também porque acreditamos que somos capazes de promover o diálogo connvosco e porque acreditamos que alguns de vocês têm, efetivamente, a capacidade para se questionarem sobre o que está certo e errado e para descobrirem a resposta correta. Porque, apesar de tudo, temos fé na vossa inteligência e na vossa capacidade para se transformarem em pessoas melhores. Vamos continuar a sair do armário também para vos interpelar, também para demolir - e ajudar a reconstruir - as vossas concepções do mundo, também para vos confrontar com as vossas ideias erradas, ou menos corretas, da sociedade; também para vos confrontar com a vossa concepção do que é amar alguém, do que significa, realmente, amar alguém; aceitar alguém no conjunto da sua complexidade.

 

Vamos continuar a sair do armário para que um dia não seja necessário, se bem que, infelizmente, desconfie que venha sempre a ser necessário. Para que um dia, aquilo que vos importe mais seja a natureza do meu carácter e não o género da pessoa com quem partilho a minha vida. Para que um dia vocês deixem de se perguntar porque raio é que nós temos de estar sempre a sair do armário e comecem a pensar de que forma é que são vocês, com o vosso preconceito e a vossa violência sobre os nossos, que nos obrigam a isso. 

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