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Traça dos Livros

"It's the way to educate your eyes. Stare. Pry, listen eavesdrop. Die knowing something. You are not here long." W Evans

Traça dos Livros

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Chamar os gays pelo nome

Depois de um post no facebook, já não sei bem a respeito do quê, recebi um email de um amigo muito querido que, entre muitas outras coisas, dizia isto: 

 

"Entretanto, li-te no fake dizendo que és gay... pois. Apeteceu-me falar-te, mas não no mural. Sabes, eu acredito que quando se ama, se ama apenas; a taxonomia corrente pretende, like together, impor normas, comportamentos, formatar pensamentos e juízos morais adaptados às necessidades por "eles", igrejas, políticos, governos, interesses de toda a espécie, determinados. Foste tu quem me disse que o amor é o mesmo, independentemente se se trata de amor por pessoa masculina ou feminina. Ou seja, a taxonomia apregoada é um primitivismo social. Falo por mim - até agora só conheci pessoas que amam. Haverá quem não ame, quem use de instintos sexuais primários; esses sim, serão gays, pedófilos, pederastas, parafílicos,heterossexuais..., wathever."

 

A minha primeira reacção foi um pouco de incredibilidade mas, depois, percebi que, para ele, como para muitas outras pessoas às quais não importa a nossa sexualidade desde que continuemos a ser íntegros e felizes, escapava o entendimento de tudo aquilo que, para além de sermos o que somos e como somos... também nos define e que é, basicamente, aliada à nossa história pessoal, a história de todos os nossos contemporâneos e a obrigação conjunta que temos para com todos aqueles que nos haverão de suceder. 

 

A resposta que lhe dei teve final feliz, porque o ajudou a ver para além de mim, sem, contudo, me perder de vista. Conseguiu ver-me dentro de um contexto e percebeu porque não posso desligar-me dele para viver na bolha de ser “apenas eu”. Permitiu-lhe aprender que esse contexto que existe também o envolve e responsabiliza. Porque somos amigos.

 

 

---------------------------------------------------------» 

 

J,

 

Não penses que a palavra me reduz. Não reduz. A palavra acrescenta-me. Também me completa. A palavra não serve o interesse maquiavélico de alguns, não molda comportamentos, não é exclusivo usufruto de quem reage aos instintos básicos. A palavra é também de quem ama.

 

Disse-te isso, sim e hoje continua a ser aquilo em que mais acredito. Que o amor é amor, independentemente da forma. Que mais felizes seríamos todos se não tivéssemos tão entranhado tanto preconceito e fossemos capazes da liberdade de experimentar a vida em toda a sua palete de possibilidades.

 

O meu amor é apenas amor... mas é também um statement político, é também um acto revolucionário. Passaram dez anos e em dez anos eu aprendi muitas coisas e tomei consciência de muitas realidades e de muitas verdades que me fizeram perceber que não posso escudar-me nesse conceito zen - e de alguma forma alheado - de que o meu amor é apenas o meu amor e de que nós somos apenas duas pessoas que se amam.

 

E sim, somos apenas e só, isso. E ser apenas e só isso, é bastante. Mas pode ser, também, muito mais.

 

As palavras precisam ser ditas, precisam ser esmiuçadas, dotadas de significado, de sinónimos, de exemplos concretos para que possam perder peso e ódio. Eu sou apenas eu, Carla, mulher… mas também sou gay, lésbica, homossexual, bissexual, fufa… e ainda que estes termos nem por isso me definam, ainda que eu não precise destes termos para me explicar ao mundo, o mundo precisa destes termos e deste posicionamento e, às vezes, desta atitude de confronto, para se ajustar. Para aprender. Para deixar de ter medo.

 

Não posso ser apenas uma pessoa que ama - e isso porque, felizmente, tive a sorte de nascer num num País que vai respeitando, sem grandes tumultos, a liberdade de cada um – quando em tantos outros países o amor entre pessoas do mesmo sexo é proibido e, em alguns casos, punido com a pena de morte.

 

Não posso ser apenas uma pessoa que ama, quando é entre a comunidade LGBT que se regista a maior taxa de suicídio de adolescentes. Quando, em pleno século XXI, ainda não fomos capazes de criar para eles um ambiente em que se sintam seguros para… apenas amar.

 

Não posso ser apenas uma pessoa que ama, quando os pais expulsam de casa os próprios filhos quando descobrem a orientação sexual destes, quando a Igreja continua a dizer que é pecado, quando alguns psicólogos continuam a dizer que a homossexualidade tem cura e quando, à conta disso, os pais continuam a enviar os seus filhos para centros de reconversão onde são submetidos a tortura.

 

Não posso ser apenas uma pessoa que ama quando, um pouco por todo o mundo, mulheres, lésbicas, são violadas como forma de reconversão sexual. Não posso ser apenas uma pessoa que ama quando, na Síria, o Daesh continua a atirar homens gays do cimo de prédios, quando na Rússia a lei protege e incentiva uma espécie de caça ao gay, quando em Portugal dizem que todos os direitos fundamentais podem ser referendados…

 

Perante isto e perante tantas outras coisas, qual delas a mais horrível, eu não posso ser apenas uma pessoa que ama outra pessoa. Eu tenho de ser uma mulher que ama outra mulher. Eu tenho de ser gay. Tenho de ser lésbica. Tenho de ser homossexual. Tenho de ser bissexual. Tenho de ser um exemplo. Tenho de ser um farol.

 

A palavra não me reduz. A palavra acrescenta-me.

 

Quando faço afirmações como essa no facebook, faço-o conscientemente. Faço-o de propósito. Faço-o porque posso. E, sobretudo, porque devo. Porque tenho uma responsabilidade. E porque decidi intervir e ser interveniente. Não posso, obviamente, mudar o mundo sozinha… mas posso contribuir, manifestando-me no quinhão de terra à minha volta. Provocando-o, confrontando-o, ajudando-o a redefinir conceitos e a tirar peso às palavras. Esse tal peso que serve tantos interesses menos o do amor. Menos o do ser humano.

 

Algumas coisas não as fazemos por nós mas pelo outros. O mundo está uma coisa muito esquisita. Não podemos ser neutros.

 

De resto, J, continuo a ser eu. E ser eu, hoje em dia, é também isto. Não é um “eu” de bandeira hasteada no meio de uma marcha gay - porque ainda não surgiu a oportunidade -  mas é um “eu” que, por me ter dado conta que, de um dia para o outro - apenas porque tinha descoberto que, para além de bolos era também “mais gajas” - tinha perdido uma série de direitos que antes me eram garantidos e inquestionáveis me tomei de espanto e não gostei. E fui saber como era possível e não gostei. E fui saber porque é que as coisas demoravam tanto tempo a melhorar e não gostei. E quando me confrontei com os meus próprios preconceitos e ideias feitas e clichés gostei ainda menos… e, precisei de aprender. E continuo a aprender, acrescentando-me coisas e eliminando outras mas permanecendo, naquilo que interessa, apenas eu.

 

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